Barriga solidária

“Quando descobrimos o tumor no colo do útero não dava mais tempo de fazer nada, tive que tirar o útero, mas o médico deixou o ovário para eu não entrar em menopausa”, contou Thais, que na época tinha 22 anos e estava no último ano da faculdade.

A mãe desabafou que foram dias difíceis, já que o tratamento da filha foi muito forte. “Passávamos até 20 dias no hospital depois da quimioterapia e eu ficava o tempo inteiro do lado dela”, disse a dona de casa Tereza.

Com o passar dos anos, Thaís se casou e começou a idealizar o fato de outra pessoa gerar seu filho. Ela contou que, a princípio, o médico sugeriu a gestação na irmã mais nova. Mas ela estava se casando e não achou apropriado o pedido. Então pensou em sua mãe, uma mulher muito forte. Não tinha como ser outra pessoa. “A maneira como ela lida com os problemas é diferente”, falou Thais.

O útero de substituição é um procedimento que pode ser utilizado em situações nas quais a pessoa que deseja ter um filho biológico não tenha condição de gerar a criança. Além de casais homoafetivos que desejam ter um filho. Ele é a doação temporária do útero de uma mulher a outra mulher, ou casal, que não pode gerar o próprio bebê.

A fertilização com o útero de substituição ou doação temporária do útero está indicada para aquelas pacientes que não possuem o útero ou que retiraram cirurgicamente (histerectomia).

Também é indicada para aquelas mulheres que possuem o útero, mas têm alguma alteração muito importante na cavidade uterina (presença de vários e grandes miomas, adenomiose importante, aderências extensas) que acabam atrapalhando a implantação e o desenvolvimento embrionário.

O tratamento consiste na realização de uma fertilização in vitro com a formação de embriões. Os embriões são então transferidos para o útero de outra mulher (doadora

temporária do útero).
As doadoras temporárias do útero devem pertencer à família de um dos parceiros em um parentesco consanguíneo até o 4º grau (mãe, irmã, avó, tia e prima), respeitando a idade limite de até 50 anos (ou acima disso desde que tenha boas condições clínicas de saúde com laudo atestado).

Quando a doadora temporária do útero não preenche esses critérios de parentesco, é necessária uma autorização especial do Conselho Regional de Medicina.

Esse processo não poderá ter caráter lucrativo ou comercial. Todos os envolvidos devem assinar um termo de consentimento informado, ter um relatório médico e psicológico, atestando a adequação clínica e emocional da doadora temporária do útero. Se a doadora temporária do útero for casada ou possuir uma união estável, o companheiro ou cônjuge deve apresentar por escrito a sua autorização.

O casal que desejar um filho biológico e precisar recorrer ao útero de substituição terá de se submeter ao tratamento de fertilização in vitro para formação de embriões. Depois do processo, os embriões serão transferidos para o útero de uma doadora temporária que fará a gestação do bebê.

Em casais heterossexuais a fertilização in vitro poderá ser feita com os materiais genéticos do homem e da mulher, e em seguida os embriões gerados serão transferidos para outra mulher que doará temporariamente seu útero.

Para casais homossexuais compostos por dois homens, é preciso que o casal escolha qual dos dois irá fornecer o sêmen. A partir da escolha, é necessário que eles recorram a uma doação anônima do óvulo que será fecundado. Só então os embriões formados deverão ser transferidos para a doadora temporária que levará a gravidez adiante.

Para a efetivação do processo, todas as pessoas envolvidas no tratamento precisam assinar um termo em que alegam consentimento para com o método. Além disso, é preciso que a doadora temporária do útero seja submetida a um relatório médico e psicológico que confirme sua adequação clínica e emocional para ser submetida à técnica.

A estimulação ovariana então é iniciada na paciente que fornecerá os óvulos (tal estímulo acontece com hormônios semelhantes aos que ela produz, para aumentar o número de folículos pré-ovulatórios). E é acompanhada através de ultrassonografias que avaliam o crescimento dos folículos.

A coleta dos óvulos é realizada com o uso de anestesia por via vaginal, e no mesmo dia da coleta o parceiro que fornecerá os espermatozoides também realiza a coleta do sêmen. A doadora temporária do útero recebe as medicações adequadas (hormônios) para sincronizar seu endométrio, e promover a preparação do útero para recepção dos embriões. A transferência dos embriões para o útero da doadora é realizada através de um exame ginecológico, sendo um processo indolor, e que não necessita de anestesia.

Por Luiz Fernando Gonçalves Borges – médico ginecologista e obstetra, pós-graduado em Reprodução Humana.