MODIFICAÇÕES EPIGENÉTICAS NOS EMBRIÕES DAS RECEPTORAS

Toda mulher que se submete a um tratamento de reprodução assistida que inclui um programa de ovorecepção tem como receio com quem o filho irá se parecer. A dúvida é natural e passa na cabeça das futuras mamães, mesmo que ocorra uma minuciosa seleção da doadora de óvulos, buscando um perfil fisicamente parecido com o dela e, de preferência, com o mesmo tipo sanguíneo.

Contudo, existem alguns fatores, ligados diretamente ao ambiente onde o embrião se desenvolve, que influenciam diretamente na sua formação, gerando alterações em diversas características, inclusive na aparência. Estas modificações são chamadas de epigenéticas.

A epigenética é uma junção da palavra grega epi (além) mais genética (relativo ao gene), ou seja, são características que vão além da genética.

Os genes são a base da hereditariedade humana e são formados por cadeias de DNA que possuem sequências como as letras de um texto. As alterações epigenéticas são os espaços e a pontuação desse texto. Portanto, apenas somando as características do DNA mais a epigenética dele que a sequência de genes faz sentido e pode coordenar todas as funções do desenvolvimento de um ser vivo.

As modificações epigenéticas são as responsáveis pela ativação ou desativação dos genes, chamados de “imprinting genético” ou “imprinting genômico”. Essas ativações são as responsáveis pela formação das características do embrião e são provenientes de estímulos enviados pelo ambiente em que a célula se desenvolve.

Devido ao imprinting genético depender dos sinais enviados pelo ambiente externo do DNA e, tratando-se de uma gestação, o útero em que o embrião está se desenvolvendo, influencia diretamente nas características do feto.

Portanto, no caso de um programa de ovorecepção, o ácido desoxirribonucleico (DNA), proveniente da fecundação entre o óvulo doado e o espermatozoide do parceiro da receptora, não é o único responsável pelas características do embrião. Os efeitos do ambiente em que ele irá se desenvolver também são fundamentais para a formação do novo ser, como: as condições do útero em que o embrião irá se implantar; a irrigação sanguínea que a placenta receberá; a alimentação da gestante e, consequentemente, a nutrição do bebê e as sensações da futura mãe durante a gestação, geram os imprintings genômicos.

Além disso, de acordo com evidências científicas, é durante a fase inicial da vida, caracterizada pelas primeiras 40 semanas, que as características da criança começam a ser moldadas, influenciadas diretamente pelas condições da gestação.

Uma prova da existência das modificações epigenéticas é que embriões provenientes de gametas femininos e masculinos dos mesmos pais geram filhos com características totalmente diferentes.

Assim como, no caso de um tratamento de reprodução humana, o embrião desenvolvido no útero da doadora do óvulo ou da receptora, geram crianças com características diferentes.

Por Luiz Fernando Gonçalves Borges – médico ginecologista e obstetra, pós-graduado em Reprodução Humana