Perdas gestacionais recorrentes

Todos nós conhecemos alguma mulher que sofreu algum aborto espontâneo. Isso porque pelo menos 20% das mulheres sofrem uma perda gestacional e isso pode ocorrer em qualquer gestação, seja de forma natural ou decorrente de Reprodução Assistida. O aborto pode trazer sentimentos ruins, mas é preciso entender o que está por trás, para então tratar e assim evitar novas perdas.

A definição de aborto é a perda fetal antes de 22 semanas de gestação ou a perda de um feto com peso inferior a 500 g. É considerado uma das maiores frustrações da vida reprodutiva de um casal. Mesmo sendo um fato bastante comum nas gestações iniciais, deve merecer uma atenção médica e, muitas vezes, um acompanhamento psicológico.

Chamamos de aborto de repetição quando ocorrem três ou mais perdas gestacionais com menos de 20 semanas, e sua prevalência está em torno de 1% a 5%. Atualmente, alguns autores sugerem que esta definição seja a partir de duas perdas sequenciais.

Diferentes alterações podem causar abortos de repetição. Mas é importante saber que, mesmo após vários exames diagnósticos, em cerca de 20% dos casos as causas não são identificadas.

Dentre as principais causas de perdas gestacionais podemos citar: alterações cromossômicas e genéticas, alterações anatômicas, causas imunológicas, trombofilias, alterações endócrino-metabólicas, infecções, fator masculino, obesidade, hábitos de vida inadequados e aborto recorrente inexplicado.

A maior parte dos abortos, cerca de 60%, é decorrente de alterações genéticas no embrião. As células do embrião devem possuir 46 cromossomos com todos os genes que permitem o desenvolvimento normal. Muitas gestações acabam em abortamento, pois os embriões têm cromossomos a mais ou a menos, o que pode ser incompatível com a vida.

Dentro disso o impacto da idade materna é grande, pois o risco de aborto devido alteração genética é cinco vezes maior em mulheres com mais de 40 anos, quando comparadas a mulheres com idade abaixo dos 35 anos de idade.

As principais alterações anatômicas relacionadas ao aborto de repetição são as malformações mullerianas (septo uterino, útero bicorno, unicorno e didelfo), miomas, pólipos e sinéquias uterinas. Para diagnóstico, recomenda-se ultrassom transvaginal e histeroscopia, entretanto muitas vezes é necessário complementar com ressonância nuclear magnética (RNM) de pelve, ultrassom 3D ou laparoscopia associada à histeroscopia para diferenciar septo de útero bicorno.

As trombofilias são doenças pouco frequentes e que provocam alterações de coagulação do sangue. Essas alterações não são detectadas em exames de sangue comuns e quando existem, aumentam a chance de formar coágulos sanguíneos e causar tromboses mínimas, capazes de impedir a implantação do embrião ou provocar abortos.

A principal delas é a Síndrome do Anticorpo Antifosfolípede (SAAF) caracterizada pela associação de anticorpos antifosfolípedes com complicações obstétricas ou trombose. Os exames para essa pesquisa são feitos por coleta de sangue em laboratórios especializados e sempre com indicação médica.

Quando falamos nas taxas de aborto, estamos nos referindo aos abortos visíveis, ou seja, quando a gravidez já foi diagnosticada. Entretanto, a maioria dos abortos não é ‘visível’, isto é, não é percebido, pois ocorre antes do atraso menstrual. Numa concepção espontânea, mais da metade dos embriões formados perdem-se, ou antes, mesmo de serem implantados, ou logo após serem implantados. Quando a gravidez é diagnosticada, até 25% podem ainda se perder. Quanto mais precoce a perda, mais chance de uma alteração cromossômica no embrião.

Infelizmente, alguns casos de abortos repetidos podem não ter explicações, mesmo depois de todos os exames citados realizados. Uma possibilidade para se atingir o sucesso de gravidez, nestes casos, é a Fertilização in vitro acompanhada de biópsia embrionária para diagnóstico de alterações cromossômicas do embrião. Assim, ao serem diagnosticados problemas desta origem, somente os embriões saudáveis (euploides) são transferidos para o útero materno, excluindo desta maneira a principal causa de aborto que é a malformação embrionária.

Por Luiz Fernando Gonçalves Borges – médico ginecologista e obstetra, pós-graduado em Reprodução Humana.