Psicologia na Reprodução Humana

Há poucas décadas, quem não conseguia engravidar era considerada estéril, e esse diagnóstico era definitivo e irreversível. A essas pessoas restavam-lhes duas opções: não ter filhos ou adotar uma criança. Com advento das tecnologias da medicina reprodutiva, muitas daquelas que antes eram consideradas estéreis passaram, a ser denominadas “inférteis”, e, nessa nova configuração, a situação passou da impossibilidade para a dificuldade de engravidar.

Ainda assim, deparar-se com o diagnóstico de infertilidade remete a angústias e frustações, pois coloca o sujeito no lugar das incertezas, sentimento de difícil manejo para o ser humano.

Diante da perda ou da ameaça do poder de procriação, muitas vezes, não se distingue o que causa mais sofrimento: a ausência do filho desejado ou os sentimentos de fracasso, perda e insegurança.

Ser infértil e desejar a gravidez resultam na busca por tratamentos de concepção assistida, e inicia-se, então uma nova jornada emocional que envolve a ansiedade pela busca de um diagnóstico preciso e a aceitação do tratamento indicado. A partir disso, entra-se em um novo universo: o tratamento e as suas vicissitudes, cercado por demandas técnicas, pela conciliação de horários, pelos medos, receios e ansiedade que permeiam o processo e suas incertezas.

Assim, o acolhimento e a oferta de um espaço no qual o casal possa ser escutado trazem benefícios irrefutáveis. Trabalhar as frustações e desenvolver a resiliência permite que o casal defina com coerência o percurso que pretende traçar e, segundo estudos científicos, propicia condições para que, com persistência e insistência, ele possa alcançar o que tanto almeja: a gravidez. Ou, para aqueles que decidem não seguir por esse caminho, a certeza da escolha e a continuidade dos planejamentos futuros.

Como Carlos Drummond de Andrade tão bem colocou, “como dói a vida, quando tira a veste de prata celeste”, ou seja, quando o paciente é escalonado para viver uma situação que o coloca dentro da roupagem de um personagem que ele nunca desejou interpretar: o de uma pessoa infértil. Como é importante que esse paciente seja acolhido ao deparar-se com essa realidade; como é importante dar um sentido para essas angústias, criar um espaço e um tempo para que possa falar delas. Esse é o diferencial que se pode aos pacientes em suas jornadas na busca da realização do sonho de serem pais.

Por Luiz Fernando Gonçalves Borges – médico ginecologista e obstetra, pós-graduado em Reprodução Humana